Artigos

A Síndrome do Encastelamento

Uma vez eleito, o político passa a ser rodeado por interesses dos mais diversos. Também por isso, para funções que demandam confiança, tende a optar por um círculo próximo com referências que possibilitem garantia de sua segurança, física e jurídica. É aí que podem começar os problemas de uma gestão.

Ao se cercar de quem, de uma forma ou de outra, depende da função que ocupa, estes muitas vezes passam a ser portadores somente de boas notícias. Seja pela falta de conhecimento ou intimidade que possibilitem a sinceridade necessária, pelas vaidades da micro-política inerentes às organizações públicas, para proteger, não “chatear o chefe” ou por medo de perder sua boa vontade, transformam a realidade do governante em uma bolha de fantasia e ilusão. Esta é a Síndrome do Encastelamento.

Absorvido pela máquina burocrática e afastado das dificuldades, mesmo sem querer, o eleito termina fechado num limbo distante do “mundo real” das “pessoas comuns”. Isso por que o sistema acaba pondo foco reduzido nele mesmo e, com isso, cria muros e gera o isolamento. Essa bolha auto-protetora se infla através dos egos, disputas de espaços e interesses particulares, não necessariamente nesta mesma ordem mas que sempre levam ao fracasso. Um abismo que chama outro abismo.

Pois o que vale na vida do político, lhe dá ou tira poder e votos, é a sua imagem e o confronto dela com a realidade. O saldo pode até ser positivo se uma imagem negativa ocupar uma realidade favorável. Mas, quando o contrário ocorre e se tem uma boa imagem que não é confirmada pela realidade, nasce a decepção traduzida na perda de confiança e popularidade. Esta, em geral, é uma das conseqüências do real problema, o encastelamento.

Para evitá-lo, o governante precisa ter contato constante com informações e pessoas que levem as verdades das ruas, o sentimento daqueles que o elegeram e que possam basear suas decisões. Caso contrário, passa a ouvir somente as meias-verdades dos privilegiados pelas ante-salas do poder que, às vezes por ambição outras por puro orgulho, defendem seus espaços e pensam no curtíssimo prazo, criando mundos distintos do restante da sociedade.

Apesar da cerimônia protocolar intrínseca aos cargos eletivos, a liderança precisa de maturidade para não ser absorvido pela Síndrome. Ser normal, não ter sirenes nem encher o ambiente de bajuladores, ajuda o equilíbrio psicológico e no resultado de uma gestão. Na política moderna não há mais espaço para realezas, estátuas ou deuses, apenas seres humanos. O mundo de verdade, que respira com ou sem máscaras, acontece fora dos palácios e castelos.

A boa notícia é que a bolha acaba forçosamente estourada com a próxima eleição. Quando então o político encastelado assombra-se com a rejeição e, inutilmente, coloca a culpa no eleitor que não soube reconhecer seu trabalho. Mal sabia ele (ou ela) que os amigos das boas notícias foram seus maiores vilões.

Por Leandro Grôppo

COMPARTILHE
WhatsApp
Telegram
Twitter
Facebook
LinkedIn
Email